A transitoriedade de todas as coisas
Luis Fernando Verissimo
O tabelião daquela cidade tinha um hábito desconcertante. Quem ia ao cartório registrar o nascimento de uma criança ouvia dele a pergunta:
- E que nome vai na lápide?
As pessoas ficavam confusas. Diziam:
- Não, não é morte. É nascimento. É uma criança.
E o tabelião insistia:
- Que nome vai na lápide, quando ela morrer?
As pessoas se revoltavam. Que brincadeira tétrica era aquela? Que mau gosto. Por que não perguntar apenas que nome o recém-nascido recebera? Afinal, tratava-se de uma vida que estava começando. Com sorte, uma longa vida. Por que lembrar que um dia ela ia acabar? Francamente!
Quando pediam para ele se explicar, o tabelião dizia que fazia aquilo para as pessoas pensarem na transitoriedade de todas as coisas e ficarem mais filosóficas. E era o mesmo tabelião que, ao oficializar um casamento, em vez de perguntar quem eram os padrinhos, perguntava:
- Quem são os cúmplices?
CLIMA
João e Maria se separaram, João foi viver com Carlos, e Maria foi viver com Dulcineide, que antes namorava a Balu, ex do Carlos. Balu não aceitou a separação e começou a ameaçar a Dulcineide e a Maria, dizendo que ia fazer coisas terríveis com elas, como pôr fogo no salão da Maria e fazer a Dulcineide engolir todos os chanéis que tinha lhe dado. Tanto que a Maria procurou o João, apesar de, na separação, ter dito que, para ela, ele era sabe o quê? Ranho, algo que se expele num lenço e não se quer mais ver, e o João ter dito que fazer amor com a Maria era como ter sexo com uma couve-flor. Mas marcaram um encontro, que foi tenso, e no qual a Maria pediu ao João para pedir ao Carlos que interferisse e falasse com a louca da Balu, que estava infernizando a vida delas, que não parava de telefonar e diziam até que andava com uma machadinha, daquelas da Tramontina para separar costeletas, na bolsa, pronta para matar as duas. O João disse que não sabia o que o Carlos poderia fazer. Era um homem ocupado e, mesmo, a separação da Balu tinha sido traumática, ela o chamara de bolor. “Sai da minha vida, bolor”, imagina, ele um magistrado, e ninguém retoma uma relação depois de ser chamado de bolor, mesmo numa emergência. Mas iria falar com o Carlos, e foi o que fez. E o Carlos foi, a contragosto, falar com a Balu, e o fato é que a Balu serenou. Não telefonou mais, parou com as ameaças, e a Maria e a Dulcineide ficaram sossegadas.
Mas no outro dia o João telefonou para dizer “Muito obrigado”. A Maria notou o sarcasmo na sua voz, o sarcasmo que era uma das razões dela ter se divorciado do João, o sarcasmo, a pele oleosa e a descoberta no seu bolso de um bilhete de amor do Carlos que começava assim: “Pulcritude...”. “Muito obrigado” por quê? E o João contou que o Carlos tinha ido falar com a Balu – e tinha pintado, ou repintado, um clima. Os dois estavam juntos outra vez, e o João ficara sozinho, tudo por culpa da Maria e da Dulcineide. A Maria se sentiu culpada e tem convidado o João para reuniões no apartamento dela e da Dulcineide, quando também convida rapazes, e moças, por via das dúvidas, na esperança de que o João se interesse por alguém. Mas tem notado que pode é estar pintando um clima entre o João e a Dulcineide. E Maria tem pensado muito na história que ouviu certa vez, do velho – ou era uma velha? – que no seu leito de morte abriu os olhos pela última vez só para gritar: “Foram os hormônios! Foram os hormônios!”, como se ensaiasse a sua defesa.
Voto inútil
O cara teve cinco votos para vereador e fez as contas: eu, a mãe, a Belinha, o seu Adélio e quem mais? Ninguém da turma, ninguém da vizinhança, nenhum dos que tinham prometido. Bom, pelo menos um. Quem seria? Eu, a mãe, a Belinha, o seu Adélio... e quem?
- Está faltando um – disse, em casa.
- Dois – disse a mãe.
Espanto geral.
- A senhora não votou em mim, mamãe?!
- Você disse que todo o bairro ia votar em você, e eu achei que não precisava!
Inigualável
Da série “Poesia numa hora dessas?!”
Ingiro-te pelos olhos e fazes bem a este coração que é pouco e a esta dor que é sina. Nada se iguala a ti seja diva faiscante ou top produzida. Só, pensando bem, uma aspirina.
Domingo, 7 de novembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.